terça-feira, 23 de agosto de 2016

Burocracia, Saramago desenha em "O conto da Ilha Desconhecida"

Profundo, brilhante, esclarecedor. Aqui o gostinho da escrita de Saramago que explica bem o que é o sistema de poder e a burocracia:

Narrador: Um homem foi bater à porta do rei e disse-lhe: 
Homem do barco: Dá-me um barco. 
Narrador: A casa do rei tinha muitas mais portas, mas aquela era a das petições. Como o rei passava todo o tempo sentado à porta dos obséquios (entenda-se, os obséquios que lhe faziam a ele), de cada vez que ouvia alguém a chamar a porta das petições fingia-se desentendido, e só quando o ressoar contínuo da aldraba de bronze se tornava, mais do que notório, escandaloso, tirando o sossego à vizinhança, as pessoas começavam a murmurar:
Pessoas do reino (murmurando): Que rei temos nós, que não atende? 
Narrador: Ai que dava-se a ordem ao primeiro-secretário para ir saber o que queria o impetrante, que não havia maneira de se calar. Então, o primeiro-secretário chamava o segundo-secretário, este chamava o terceiro, que mandava o primeiro-ajudante, que por sua vez mandava o segundo, e assim por aí fora até chegar à mulher da limpeza, a qual, não tendo ninguém em quem mandar, entreabria a porta das petições e perguntava pela frincha: 
Mulher da limpeza: Que é que tu queres? 
Narrador: O suplicante dizia que vinha, isto é, pedia o que tinha a pedir, depois instalava-se a um canto da porta, à espera de que o requerimento fizesse, de um a um, o caminho ao contrário, até chegar ao rei. Ocupado como sempre estava com os obséquios, o rei demorava a resposta, e já não era pequeno sinal de atenção ao bem-estar e felicidade do seu povo quando resolvia pedir um parecer fundamentado por escrito ao primeiro-secretário, o qual, escusado seria dizer, passava a encomenda ao segundo-secretário, este ao terceiro, sucessivamente, até chegar outra vez à mulher da limpeza, que despachava sim ou não conforme estivesse de maré. Contudo, no caso do homem que queria um barco, as coisas não se passaram bem assim....
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